|
Artigo de Cleber Benvegnú
Zero Hora, 12/12/2009 - pg. 21 O futebol percorre um perigoso e lamentável caminho rumo à bestialização. O que era para ser divertimento ou – no máximo – uma leve e saudável rivalidade entre amigos, eis que tem se transformado num palco de patologias individuais e coletivas do nosso tempo. Monstros humanos enrustidos ou assumidos soltam suas feras no aparente anonimato da multidão e na passionalidade desse meio. Basta ver tudo o que se passou no último final de semana, – pasmem – mesmo entre torcedores do Flamengo, que tinham só motivos para comemorar. Todos os limites foram extrapolados. A razoabilidade das torcidas – organizadas ou não – já ficou para trás faz horas. É claro que a paixão futebolística tem um quê de irracional. E é bom que seja assim. Trata-se de um flerte agradável e necessário para não deixar a vida cair nas rotinas estanques e metodológicas do nosso dia. É uma concessão à emoção, às coisas sanguíneas. À vibração. Entretanto, hoje está em curso, mesmo na relação entre amigos próximos e familiares, algo que noutras épocas não tinha esse caráter tão profundo e quase ideológico. A escolha do clube virou causa de vida. Amizades são selecionadas por esse critério. É uma entrega devocional, histérica e exagerada. Mesmo entre formadores de opinião e profissionais da área, parece haver uma supervalorização da importância do futebol como algo decisivo para a civilização contemporânea. Menos, bem menos... Repito: torcer por um time – e até ser apaixonado por ele – é algo absolutamente compreensível e instigante. Dá leveza e diverte a vida. Porém, fazer disso um mote para a bestialização é, quando não um crime, no mínimo uma demonstração inequívoca de desequilíbrio mental. Senão, de que mal padecem aqueles rapazes que se violentaram, coritibanos e flamenguistas – gremistas e colorados, noutras vezes –, senão desse distúrbio? O que dizer dos que se engalfinham por uma causa “esportiva”? Autoridades, dirigentes e torcedores civilizados – que são a absoluta maioria – precisam vigiar o próprio futebol. Ou ele é tomado pelas pessoas de bem – que querem tão-somente torcer ou até secar de vez em quando –, ou vira propriedade de bestas-feras que só fazem destruir e autodestruir-se. Ou fica para os sãos, ou será tomado por animais travestidos de homens. Ou vence com a alegria, ou sucumbirá diante da tristeza e do medo. Ou é festa, ou será funeral e cadeia. Ou é sinônimo de saúde, ou se esgotará como doença. |